28/08/26

obituário


Li no Ponto Final, no passado dia 11 de Agosto, que o popular Café Lisboa fechou portas. Ausente há algum tempo não me apercebi de nada. Há dias passei à sua porta e confirmei a triste veracidade da notícia. 


Não foi o único estabelecimento que encerrou na zona do NAPE nos últimos meses, e anos. Hoje é possível ver inúmeros espaços comerciais à espera de novos arrendatários, acumulando-se as cartas no chão sujo e poeirento que se vislumbra por detrás dos vidros sujos. Uma vez por outra lá abre uma nova loja. Na maioria dos casos, salvo se for para vender garrafas de moutai e de whisky por dezenas de milhares de patacas, encerram ao fim de pouco tempo. 


Esses novos espaços que se vão revezando nas artérias daquela área, dedicados aos comes e bebes, e com excepção dos que se especializaram em bebidas à base de café, das mais diversas origens, da Jamaica à Colômbia, do Brasil à Etiópia e a Timor, ou doçaria, apresentando espaços arejados, bem decorados, com design moderno e máquinas italianas de primeira linha, não primam pela qualidade. Fritos e comidas pestilentas e gordurosas, que são um insulto à boa e simples culinária cantonense, são a sua especialidade. Não admira que fechem tão depressa quanto abrem.


Não era o caso do Café Lisboa. Este servia uma vasta clientela de comensais e diariamente oferecia um leque variado de sugestões. Para além da sua proprietária ter uns óptimos pudins e tartes de amêndoa, e vender uns belíssimos biscoitos que lá em casa não se cansavam de me pedir.


Estranhei o encerramento. Onde antes era “A Baía”, cujo proprietário há uns anos rumou a outras paragens mais condicentes com o seu estilo, passara a funcionar um espaço que sofreu obras de remodelação e investimentos. Se no restaurante que antes ali existia a sala cheirava muitas vezes a esgoto e se entrava perfumado para se sair mais pobre e com a roupa a cheirar intensamente a fritos, motivo mais do que suficiente para se não voltar a pôr ali os pés, depois, com o Café Lisboa, esses problemas foram resolvidos. Sempre que lá ia e chegava ao escritório depois do almoço já ninguém notava a diferença de cheiro na roupa entre a manhã e a tarde. Uma conquista.

 

Esperava que o Café Lisboa ali tivesse uma vida longa e feliz para os seus proprietários e quem os visitava. Porém, quem leia a reportagem do Ponto Final e atente nas declarações daqueles logo percebe o porquê do encerramento. As razões são apontadas de forma que não deixa dúvidas a ninguém: falta de pessoal e o valor das rendas. Aflige todos, quase ninguém se queixa, seja por comodismo ou medo de perder o pouco negócio que ainda tem e que depende de terceiros.


São problemas antigos e recorrentes herdados de anteriores executivos e que continuam a agravar-se. E não é por razões de segurança nacional. É por falta de vistas, atavismo, seguidismo, ausência de talentos capazes a inovar e liderar, constrangimentos burocráticos e simples provincianismo.


Por mais planos quinquenais que se apresentem, por muito participados que sejam, por muitos talentos que promovam, por muito empenho que haja de quem manda na diversificação económica, nada, mas mesmo nada, sobreviverá num mercado livre e competitivo enquanto as rendas continuarem a apresentar valores proibitivos e houver um espartilho à contratação de mão-de-obra estrangeira que queira trabalhar, fazendo o que os locais não fazem, e saiba inglês. 


Este é o mínimo que deverá ser exigido numa cidade que se quer internacional e virada para um turismo mais qualificado do que aquele que nos chega das montanhas vizinhas para fazer fila nos estabelecimentos que vendem doses de dobrada em caixas de plástico, que depois comem pelos cantos da Taipa ou quando sobem a Rua de Cunha e olham desconfiados para a porta d’O Santos e quem nele entra.


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