01/06/26

supermercados


No Telejornal de ontem, domingo, 31 de Maio, a TDM apresentou uma reportagem referente à inauguração de um grande supermercado em Zhuhai. De acordo com o relatado, o local dista cerca de 300 metros da fronteira das Portas do Cerco e houve uma verdadeira romaria ao novo espaço comercial.

Os residentes de Macau que ali foram entrevistados, e o que se viu e ouviu na reportagem, apontaram inequivocamente as razões para tantos atravessarem a fronteira para fazer compras. Uma diferença gritante de preços – houve quem falasse numa redução de ⅓ –  entre os praticados em Macau e os do outro lado e uma oferta muito superior. 

O representante dos comerciantes de cá mostrou a sua preocupação e referiu o facto das rendas serem mais baixas do outro lado para a disparidade dos preços praticados. Acordaram tarde.

Esses são seguramente alguns dos factores. Não são todos.

Ron Lam, na última legislatura, e outros antigos residentes que desempenharam funções de deputados, muitas vezes alertaram o Executivo para alguns dos problemas mencionados na aludida reportagem. Ao longo de anos esses apelos foram desvalorizados porque para a camarilha monopolista e oligopolista local, ligada aos centros de poder formais e informais e respectiva parentela, nunca houve uma genuína preocupação com o bem-estar dos residentes, com o controlo da especulação imobiliária e dos preços nos supermercados, com a permanente degradação da qualidade dos produtos e ausência de oferta atractiva. 

Da fruta com óptimo aspecto que depois se vem a verificar estar podre ou ser intragável, seja devido aos sucessivos processos de congelação e descongelação ou por ser colhida demasiado verde, aos preços exorbitantes da carne, do peixe ou dos lacticínios, com variações constantes e sem qualquer justificação de um dia para outro, com uma acção fiscalizadora que sempre deixou muito a desejar por parte do Conselho dos Consumidores, houve de tudo ou pouco para chegarmos à situação actual.

Os Serviços de Estatística dizem-nos que o decréscimo no negócio dos supermercados locais foi de 5,2%. Ainda assim é muito bom porque apesar de tudo continuam a facturar com produtos caros e de má qualidade.

Aos poucos será fundamental que o Chefe do Executivo vá corrigindo todas estas "disfuncionalidades" cultivadas pelos seus dois antecessores em benefício da casta local e em prejuízo da generalidade da população. 

É fundamental que isso seja feito rapidamente em prol de todos, porque também há muitos que não podem, nem vão, fazer compras a Zhuhai. Todos os que aqui vivem, não obstante todas as vicissitudes dos últimos anos, são tão gente quanto os que vivem do outro lado, e têm o direito de voltar a ter em Macau uma oferta decente nos seus supermercados, com um mínimo de qualidade e a preços normais, como tinham há dez, quinze ou vinte anos. Ninguém se alimenta ou se veste com o ouro e as jóias de Chow Tai Fook ou Lok Fook ou vai comprar vegetais a uma farmácia, únicos que podem pagar as rendas exorbitantes que muitos senhorios continuam a pedir em Macau.

E o que se diz em relação aos supermercados também se deve dizer no que aos restaurantes, bares e cafés importa. A este nível há toda uma revolução por fazer. Mas que terá de ser realizada, incluindo nos estabelecimentos dos casinos.

25/05/26

corrida


Há um momento em que se inicia uma viagem da qual se sabe que não haverá hipótese de regressar igual. Sabemos que um dia será necessário iniciá-la; procuramos sempre adiá-la. 
Esta que há dias comecei levar-me-á para longe. Não sei durante quanto tempo, nem quem encontrarei ao longo desse percurso. 
De tempos a tempos dar-vos-ei nota do que for descobrindo, das experiências que for vivendo ao longo de um caminho que se fará diariamente com a esperança, o empenho, a tenacidade que as circunstâncias exigem. As minhas 24 Horas de Le Mans de 2026 estão prestes a começar.
Vai ser a mais importante prova de resistência da minha vida. E o facto de há anos, décadas, por lá andar, vestindo uma outra pele, sei que me dará energia e vontade para chegar ao fim. 
Quando cortar a meta, mais para o Verão, não espero apenas ver uma bandeira de xadrez, mas também uma praia. Cheia de luz, de sol e de muito azul fugindo da espuma branca que sai da crista das ondas, como a daqueles bravos que atravessavam, noutros tempos, as areias do Saara em busca da visão idílica da chegada a Dacar.
E que os deuses nos protejam. A todos os que nesta prova irão participar. 
E aos que nos garantirão do lado de fora a assistência ao longo do percurso, as mudanças de pneus, os indispensáveis reabastecimentos, cujo sorriso e ternura procurarei quando os meus olhos os vislumbrarem a partir do lado de dentro do capacete. Só assim chegaremos a bom porto.

25/04/26

Abril

 

A luta continua pela defesa da liberdade e da dignidade da pessoa humana, da língua, da cultura, do Estado de direito e da civilização, até nos livrarmos dos emplastros do regime, dos fascistas reconvertidos, dos comunas empedernidos, dos populistas, dos centralismos burocráticos e "democráticos", dos oportunistas e ladrões de Abril, dos ignorantes e semi-analfabetos que o regime acolheu, e das seitas e corporações que continuam. 
A verdadeira revolução continua por fazer e só se concluirá com a mudança das mentalidades, com ética, decência e humildade. 

22/04/26

Mexilhão



As operadoras das carreiras de jetfoils entre Macau e Hong Kong, Cotai Water Jet e Turbojet, anunciaram ontem um aumento do preço dos bilhetes. O facto é reportado em todos os jornais.

O aumento dos combustíveis é uma realidade desde que o celerado Trump decidiu, com a cumplicidade cínica e estimulante de Netanyahu. Seria por isso normal que mais dia menos dia as concessionárias aumentassem o preço dos bilhetes.

O que ninguém esperava era que o Governo de Macau autorizasse apenas o aumento do preço dos bilhetes em classe económica. 

Em regra, quem viaja em primeira classe e classe executiva – Cotai Frist, Super Class e Premier Grand Class – é quem ganha o suficiente para pagar o luxo, o conforto e a exclusividade, ou tem quem pague por si. Por isso os bilhetes para essas classes são mais caros. 

Trata-se de uma realidade facilmente compreensível para qualquer cidadão. Porém, o que aparentemente é normal para os residentes não é perceptível para os governantes. E uma vez mais isso voltou a verificar-se.

Não há razão, nem justificação alguma, para serem apenas os menos favorecidos a pagar o aumento dos custos dos combustíveis. Ao permitir-se um aumento de preços nas viagens de jetfoil apenas para quem viaja em classe económica, mantendo os preços em primeira classe, dá-se mais um mau sinal à sociedade de Macau e mostra-se que o Governo e o Secretário para os Transportes e Obras Públicas se preocupam mais com os ricos do que com os pobres. 

Quem viajar em primeira classe nos jetfoils da Turbojet e da Macau Water Jet, a partir de 25 de Abril, quando entrarem em vigor os novos preços, bem poderá dizer que na RAEM são os menos abonados que pagam a crise. Era assim no tempo colonial, continua a ser assim na nova era.

20/04/26

humanóides

(créditos: AP via Macau Daily Times)

Anda por aí um incompreensível histerismo com as imagens das televisões e as notícias dos jornais sobre os feitos de um robot, com marcha ou corrida humanóide, que numa pista paralela correu a meia-maratona de Pequim. 

Ao que dizem as notícias, a criatura mecânica fez o "extraordinário" tempo de 50 minutos e 26 segundos. Esta marca "bateu" a do humano Jacob Kiplimo, um queniano que em Março fez 57 minutos numa prova idêntica em Lisboa.

Confesso que não alcanço qual seja o objectivo de colocar esses robots disformes, horríveis, com umas articulações mecânicas que em nada se assemelham às humanas, a correr ao lado dos humanos. E ainda mais confuso fico quando querem comparar os tempos que fazem em percursos semelhantes.

Há gente que pode ficar muito contente, mas essa nova adoração e culto dos robots humanóides é mais uma prova da desumanização das nossas sociedades e da inesgotável estupidez humana. A seguir às bonecas de silicone que visam substituir as mulheres da vida real.

Se querem que o humanóide corra mais depressa que os homens não será necessário muito. É dotarem-no de uma unidade motriz mais potente, aumentarem-lhe a "cavalagem", como dizem alguns mecânicos na preparação de carros de competição, ou colocarem-lhe uns patins, e estou seguro que assim baterão todos os recordes. 

Não serão é recordes humanos. Serão recordes de robots humanóides, e por natureza incomparáveis com os humanos por se tratarem de realidades diferentes em todos os sentidos: sem nervo, sentimento, reacções, humores, sem a perfeição e o acabamento que o nosso Criador, seja lá quem for, nos deu.

O grau de estupidez que este tipo de adoração e comparação entre feitos de humanos, reais, com marcas de humanóides comporta, em vez de colocar a tecnologia ao serviço do criador, parece querer colocar o criador ao serviço da criação, e passar a avaliar as suas características, natureza, personalidade em função de uma máquina. Uma aberração.

O drama maior é que numa sociedade dominada pela informação, os media e as redes sociais, quem escuta também é colocado ao nível do humanóide. 

E os humanóides não estão apenas nas estradas correndo maratonas ao lado dos humanos, estão nas televisões, nas rádios e nos jornais. Em Portugal há um exército de comentadores humanóides que emite opiniões como se fosse ciência. 

De reservistas e reformados da tropa a catedráticas da petulância e da bola, discursando sobre "o Trump", as tácticas do chuto-na-bola e as crises que afectam a geopolítica mundial. 

Torna-se por isso natural, embora inaceitável, haver alguém a dizer que Pearl Harbor "só" aconteceu devido ao facto dos japoneses terem "levado" com duas bombas atómicas. Esta é a prova do que acima escrevi. A garantia, terrível, de que caminhamos rapidamente para um mundo dominado por humanóides, com alguns de carne, osso e microfone. 

A diferença é que os humanóides de diversas ligas metálicas não têm culpa. Não estudaram. Nem tinham obrigação de fazê-lo. E desses podemos livrar-nos. Atirando-os por uma janela ou dando-lhes umas boas marteladas. Dos outros não. E ainda é preciso pagar-lhes o salário.

31/03/26

reconciliação

Muitas vezes me obrigaram a mudar de casa. Creio que nunca houve coisa que mais detestasse na minha infância. E assim continuei ao longo da vida. Nunca gostei de mudar de porto de abrigo. A gente afeiçoa-se aos lugares, às pessoas, aos cantos. Entregamo-nos a quem nos acolhe. E a seguir somos desalojados. Irremediavelmente despejados. Não há discussão possível. Quando isso acontece há algumas memórias que se deixam preservar. Outras, construídas ao longo do fio dos anos, são simplesmente amputadas. 

No último porto onde fundeei, recebi há dias, contra minha vontade, instruções para zarpar. Levantar ferro. E fixaram-me prazo: 30 de Junho. E se não recolher até lá todo o material que ali armazenei, aquele será dado como perdido. 

Se assim é, não vou ficar à espera que mudem as páginas do calendário. Já basta o trabalhão que o comandante e alguns tripulantes do Delito de Opinião terão pela frente. Não é o mesmo preparar para a viagem um porta-aviões e um pequeno veleiro. Mas não há alternativa. 

Sapo Blogs revelou-se uma plataforma sem gente dentro. Uma espécie de tratado de caracteres sem consequências, onde as regras são mudadas por puro arbítrio do senhorio. Sem consideração por quem ajudou a fazer e cuidou da casa. 

Há, pois, que cortar rapidamente. Não há mais nada para se ver. Está tudo visto. E que sejam felizes.

Agora há que recuperar o que for possível; depois, preparar os mantimentos para a viagem, verificar os coletes e as adriças, soltar as amarras, recolher as defensas e fazer-me ao largo. 

Quem sabe se essa não será a melhor forma de me reconciliar? De voltar, como escreveu Hernán Díaz, a "esculpir o presente no bloco informe do futuro". É o que por aqui continuarei a fazer. Entre Partagas, sempre que possa, enquanto olho para o mundo.

Ponto por ponto, letra a letra, folha a folha, dando sentido ao que não pode ficar esquecido. Com a liberdade de sempre. Entre amigos, com quem nos quer bem e merece a nossa confiança. Com os que lêem.