31/03/26

reconciliação

Muitas vezes me obrigaram a mudar de casa. Creio que nunca houve coisa que mais detestasse na minha infância. E assim continuei ao longo da vida. Nunca gostei de mudar de porto de abrigo. A gente afeiçoa-se aos lugares, às pessoas, aos cantos. Entregamo-nos a quem nos acolhe. E a seguir somos desalojados. Irremediavelmente despejados. Não há discussão possível. Quando isso acontece há algumas memórias que se deixam preservar. Outras, construídas ao longo do fio dos anos, são simplesmente amputadas. 

No último porto onde fundeei, recebi há dias, contra minha vontade, instruções para zarpar. Levantar ferro. E fixaram-me prazo: 30 de Junho. E se não recolher até lá todo o material que ali armazenei, aquele será dado como perdido. 

Se assim é, não vou ficar à espera que mudem as páginas do calendário. Já basta o trabalhão que o comandante e alguns tripulantes do Delito de Opinião terão pela frente. Não é o mesmo preparar para a viagem um porta-aviões e um pequeno veleiro. Mas não há alternativa. 

Sapo Blogs revelou-se uma plataforma sem gente dentro. Uma espécie de tratado de caracteres sem consequências, onde as regras são mudadas por puro arbítrio do senhorio. Sem consideração por quem ajudou a fazer e cuidou da casa. 

Há, pois, que cortar rapidamente. Não há mais nada para se ver. Está tudo visto. E que sejam felizes.

Agora há que recuperar o que for possível; depois, preparar os mantimentos para a viagem, verificar os coletes e as adriças, soltar as amarras, recolher as defensas e fazer-me ao largo. 

Quem sabe se essa não será a melhor forma de me reconciliar? De voltar, como escreveu Hernán Díaz, a "esculpir o presente no bloco informe do futuro". É o que por aqui continuarei a fazer. Entre Partagas, sempre que possa, enquanto olho para o mundo.

Ponto por ponto, letra a letra, folha a folha, dando sentido ao que não pode ficar esquecido. Com a liberdade de sempre. Entre amigos, com quem nos quer bem e merece a nossa confiança. Com os que lêem.