virtualreal
reflexão, comentário, crítica, cidadania, e tudo o mais que mereça duas linhas
25/04/26
Abril
22/04/26
Mexilhão
O aumento dos combustíveis é uma realidade desde que o celerado Trump decidiu, com a cumplicidade cínica e estimulante de Netanyahu. Seria por isso normal que mais dia menos dia as concessionárias aumentassem o preço dos bilhetes.
O que ninguém esperava era que o Governo de Macau autorizasse apenas o aumento do preço dos bilhetes em classe económica.
Em regra, quem viaja em primeira classe e classe executiva – Cotai Frist, Super Class e Premier Grand Class – é quem ganha o suficiente para pagar o luxo, o conforto e a exclusividade, ou tem quem pague por si. Por isso os bilhetes para essas classes são mais caros.
Trata-se de uma realidade facilmente compreensível para qualquer cidadão. Porém, o que aparentemente é normal para os residentes não é perceptível para os governantes. E uma vez mais isso voltou a verificar-se.
Não há razão, nem justificação alguma, para serem apenas os menos favorecidos a pagar o aumento dos custos dos combustíveis. Ao permitir-se um aumento de preços nas viagens de jetfoil apenas para quem viaja em classe económica, mantendo os preços em primeira classe, dá-se mais um mau sinal à sociedade de Macau e mostra-se que o Governo e o Secretário para os Transportes e Obras Públicas se preocupam mais com os ricos do que com os pobres.
Quem viajar em primeira classe nos jetfoils da Turbojet e da Macau Water Jet, a partir de 25 de Abril, quando entrarem em vigor os novos preços, bem poderá dizer que na RAEM são os menos abonados que pagam a crise. Era assim no tempo colonial, continua a ser assim na nova era.
20/04/26
humanóides
Ao que dizem as notícias, a criatura mecânica fez o "extraordinário" tempo de 50 minutos e 26 segundos. Esta marca "bateu" a do humano Jacob Kiplimo, um queniano que em Março fez 57 minutos numa prova idêntica em Lisboa.
Confesso que não alcanço qual seja o objectivo de colocar esses robots disformes, horríveis, com umas articulações mecânicas que em nada se assemelham às humanas, a correr ao lado dos humanos. E ainda mais confuso fico quando querem comparar os tempos que fazem em percursos semelhantes.
Há gente que pode ficar muito contente, mas essa nova adoração e culto dos robots humanóides é mais uma prova da desumanização das nossas sociedades e da inesgotável estupidez humana. A seguir às bonecas de silicone que visam substituir as mulheres da vida real.
Se querem que o humanóide corra mais depressa que os homens não será necessário muito. É dotarem-no de uma unidade motriz mais potente, aumentarem-lhe a "cavalagem", como dizem alguns mecânicos na preparação de carros de competição, ou colocarem-lhe uns patins, e estou seguro que assim baterão todos os recordes.
Não serão é recordes humanos. Serão recordes de robots humanóides, e por natureza incomparáveis com os humanos por se tratarem de realidades diferentes em todos os sentidos: sem nervo, sentimento, reacções, humores, sem a perfeição e o acabamento que o nosso Criador, seja lá quem for, nos deu.
O grau de estupidez que este tipo de adoração e comparação entre feitos de humanos, reais, com marcas de humanóides comporta, em vez de colocar a tecnologia ao serviço do criador, parece querer colocar o criador ao serviço da criação, e passar a avaliar as suas características, natureza, personalidade em função de uma máquina. Uma aberração.
O drama maior é que numa sociedade dominada pela informação, os media e as redes sociais, quem escuta também é colocado ao nível do humanóide.
E os humanóides não estão apenas nas estradas correndo maratonas ao lado dos humanos, estão nas televisões, nas rádios e nos jornais. Em Portugal há um exército de comentadores humanóides que emite opiniões como se fosse ciência.
De reservistas e reformados da tropa a catedráticas da petulância e da bola, discursando sobre "o Trump", as tácticas do chuto-na-bola e as crises que afectam a geopolítica mundial.
Torna-se por isso natural, embora inaceitável, haver alguém a dizer que Pearl Harbor "só" aconteceu devido ao facto dos japoneses terem "levado" com duas bombas atómicas. Esta é a prova do que acima escrevi. A garantia, terrível, de que caminhamos rapidamente para um mundo dominado por humanóides, com alguns de carne, osso e microfone.
A diferença é que os humanóides de diversas ligas metálicas não têm culpa. Não estudaram. Nem tinham obrigação de fazê-lo. E desses podemos livrar-nos. Atirando-os por uma janela ou dando-lhes umas boas marteladas. Dos outros não. E ainda é preciso pagar-lhes o salário.
31/03/26
reconciliação
No último porto onde fundeei, recebi há dias, contra minha vontade, instruções para zarpar. Levantar ferro. E fixaram-me prazo: 30 de Junho. E se não recolher até lá todo o material que ali armazenei, aquele será dado como perdido.
Se assim é, não vou ficar à espera que mudem as páginas do calendário. Já basta o trabalhão que o comandante e alguns tripulantes do Delito de Opinião terão pela frente. Não é o mesmo preparar para a viagem um porta-aviões e um pequeno veleiro. Mas não há alternativa.
O Sapo Blogs revelou-se uma plataforma sem gente dentro. Uma espécie de tratado de caracteres sem consequências, onde as regras são mudadas por puro arbítrio do senhorio. Sem consideração por quem ajudou a fazer e cuidou da casa.
Há, pois, que cortar rapidamente. Não há mais nada para se ver. Está tudo visto. E que sejam felizes.
Agora há que recuperar o que for possível; depois, preparar os mantimentos para a viagem, verificar os coletes e as adriças, soltar as amarras, recolher as defensas e fazer-me ao largo.
Quem sabe se essa não será a melhor forma de me reconciliar? De voltar, como escreveu Hernán Díaz, a "esculpir o presente no bloco informe do futuro". É o que por aqui continuarei a fazer. Entre Partagas, sempre que possa, enquanto olho para o mundo.
Ponto por ponto, letra a letra, folha a folha, dando sentido ao que não pode ficar esquecido. Com a liberdade de sempre. Entre amigos, com quem nos quer bem e merece a nossa confiança. Com os que lêem.



