08/06/26

trapalhadas

(créditos: Ponto Final)

O Boletim Oficial e a comunicação social relataram na semana que findou a nomeação dos novos administradores da sociedade concessionária do Aeroporto Internacional de Macau, conhecida pelo acrónimo CAM

Até aqui nada de especial. É normal que de tempos a tempos as estruturas empresariais se renovem, modernizem e promovam novos quadros, habilitados e tecnicamente competentes.

Menos compreensíveis são algumas das nomeações determinadas neste caso pelo Chefe do Executivo. Para a opinião pública que ainda pensa é sempre importante conhecer os critérios que presidem às escolhas, embora se saiba que nos sistemas com "predominância do executivo", de raiz autocrática-colonial-socialista, haja sempre a tendência para não dar respostas, não se prestarem esclarecimentos, e assobiar-se para o lado quando há perguntas incómodas.

A nomeação do ex-secretário para a Economia e Finanças, Tai Kin Ip, que em Abril saiu do governo por "motivos pessoais", de acordo com o que a imprensa então escreveu, ou outros, como se fez passar nalguns rumores que me chegaram, não aconselhariam a sua nomeação para um cargo executivo na administração da concessionária. 

A não ser que isso já estivesse nas previsões de quem nomeou, mas nesse caso teria sido melhor desde logo dizer que iria sair para no futuro ocupar uma posição – bem remunerada – na CAM. 

Que motivos pessoais seriam esses que impediam Tai Kin Ip de continuar a ser membro do Governo da RAEM, mas não são impeditivos do exercício do cargo para que agora foi nomeado? Esse impedimentos foram removidos? Se foi esse o caso, se os impedimentos foram removidos, e ele estava antes de sair a fazer um bom trabalho – diz a imprensa que desempenhou as funções com brio e cumprindo  com o que lhe fora pedido, "em obediência à lei, com sentido de responsabilidade, determinação e eficácia (...)" –,  e não havendo ainda novo secretário nomeado, por que razão não reassumiu funções em vez de ser agora nomeado para a CAM? O que impediu até hoje a nomeação de um novo titular para essa pasta crucial do executivo da RAEM de onde Tai Kin Ip saiu?

Esta não foi, todavia, a única nomeação que causou estranheza. 

Também as de Chui Sai Cheong, o ex-presidente da Assembleia Legislativa, como presidente do Conselho de Administração da CAM - Sociedade do Aeroporto Internacional de Macau, S.A.R.L., e de Pun Weng Kun causaram perplexidade. 

O primeiro pela sua idade, 72 anos, sabendo-se que muitos funcionários públicos qualificados e juízes assim que atingem os 65 anos são imediatamente afastados de funções, apesar de fazerem falta ao serviço, mas igualmente pelo seu ar aparentemente bastante cansado e debilitado, já visível no seu último mandato na Assembleia Legislativa, que recomendaria uma reforma descansada. Não havia ninguém mais jovem, nem mais qualificado na área em causa para essa nomeação que importava fazer? 

Quanto ao ex-presidente do Instituto dos Desportos de Macau não se percebe que competências possa ter na área para que foi nomeado. Funcionário público de carreira, licenciado em educação física e desporto pelo antigo Instituto Politécnico de Macau, e com um "mestrado em sociologia humanística" pela Universidade Pequim, seja lá o que isto for, não se percebe de onde vem a sua especial aptidão para a gestão de uma concessionária de serviço público na área dos aeroportos e do transporte aéreo. A não ser que se tenha em vista a organização de provas de atletismo ou de karting nas instalações aeroportuárias, o que seria sempre uma forma de "diversificar".

Enfim, embora sejam todos excelentes e simpáticas pessoas, o que posso atestar, certo é que sem se perceber quais os critérios que presidem a este tipo de escolhas por parte do Chefe do Executivo, é natural que a desconfiança da opinião pública seja grande. O tempo passa e não se vêem resultados, com excepção do combate ao crime, sendo esta uma boa herança do ex-titular da pasta da Segurança.

Estou certo de que as escolhas para a CAM foram bastante ponderadas e os visados são patriotas dos quatro costados. Duvido é que as escolhas se destinem a algo mais do que ao preenchimento de lugares e à atribuição de tenças. 

Aguardemos, pois, para ver como se irão "desembrulhar" nas novas funções e qual o trabalho que produzirão. A imprensa que esteja atenta e faça o devido escrutínio.

01/06/26

supermercados


No Telejornal de ontem, domingo, 31 de Maio, a TDM apresentou uma reportagem referente à inauguração de um grande supermercado em Zhuhai. De acordo com o relatado, o local dista cerca de 300 metros da fronteira das Portas do Cerco e houve uma verdadeira romaria ao novo espaço comercial.

Os residentes de Macau que ali foram entrevistados, e o que se viu e ouviu na reportagem, apontaram inequivocamente as razões para tantos atravessarem a fronteira para fazer compras. Uma diferença gritante de preços – houve quem falasse numa redução de ⅓ –  entre os praticados em Macau e os do outro lado e uma oferta muito superior. 

O representante dos comerciantes de cá mostrou a sua preocupação e referiu o facto das rendas serem mais baixas do outro lado para a disparidade dos preços praticados. Acordaram tarde.

Esses são seguramente alguns dos factores. Não são todos.

Ron Lam, na última legislatura, e outros antigos residentes que desempenharam funções de deputados, muitas vezes alertaram o Executivo para alguns dos problemas mencionados na aludida reportagem. Ao longo de anos esses apelos foram desvalorizados porque para a camarilha monopolista e oligopolista local, ligada aos centros de poder formais e informais e respectiva parentela, nunca houve uma genuína preocupação com o bem-estar dos residentes, com o controlo da especulação imobiliária e dos preços nos supermercados, com a permanente degradação da qualidade dos produtos e ausência de oferta atractiva. 

Da fruta com óptimo aspecto que depois se vem a verificar estar podre ou ser intragável, seja devido aos sucessivos processos de congelação e descongelação ou por ser colhida demasiado verde, aos preços exorbitantes da carne, do peixe ou dos lacticínios, com variações constantes e sem qualquer justificação de um dia para outro, com uma acção fiscalizadora que sempre deixou muito a desejar por parte do Conselho dos Consumidores, houve de tudo ou pouco para chegarmos à situação actual.

Os Serviços de Estatística dizem-nos que o decréscimo no negócio dos supermercados locais foi de 5,2%. Ainda assim é muito bom porque apesar de tudo continuam a facturar com produtos caros e de má qualidade.

Aos poucos será fundamental que o Chefe do Executivo vá corrigindo todas estas "disfuncionalidades" cultivadas pelos seus dois antecessores em benefício da casta local e em prejuízo da generalidade da população. 

É fundamental que isso seja feito rapidamente em prol de todos, porque também há muitos que não podem, nem vão, fazer compras a Zhuhai. Todos os que aqui vivem, não obstante todas as vicissitudes dos últimos anos, são tão gente quanto os que vivem do outro lado, e têm o direito de voltar a ter em Macau uma oferta decente nos seus supermercados, com um mínimo de qualidade e a preços normais, como tinham há dez, quinze ou vinte anos. Ninguém se alimenta ou se veste com o ouro e as jóias de Chow Tai Fook ou Lok Fook ou vai comprar vegetais a uma farmácia, únicos que podem pagar as rendas exorbitantes que muitos senhorios continuam a pedir em Macau.

E o que se diz em relação aos supermercados também se deve dizer no que aos restaurantes, bares e cafés importa. A este nível há toda uma revolução por fazer. Mas que terá de ser realizada, incluindo nos estabelecimentos dos casinos.