No Telejornal de ontem, domingo, 31 de Maio, a TDM apresentou uma reportagem referente à inauguração de um grande supermercado em Zhuhai. De acordo com o relatado, o local dista cerca de 300 metros da fronteira das Portas do Cerco e houve uma verdadeira romaria ao novo espaço comercial.
Os residentes de Macau que ali foram entrevistados, e o que se viu e ouviu na reportagem, apontaram inequivocamente as razões para tantos atravessarem a fronteira para fazer compras. Uma diferença gritante de preços – houve quem falasse numa redução de ⅓ – entre os praticados em Macau e os do outro lado e uma oferta muito superior.
O representante dos comerciantes de cá mostrou a sua preocupação e referiu o facto das rendas serem mais baixas do outro lado para a disparidade dos preços praticados. Acordaram tarde.
Esses são seguramente alguns dos factores. Não são todos.
Ron Lam, na última legislatura, e outros antigos residentes que desempenharam funções de deputados, muitas vezes alertaram o Executivo para alguns dos problemas mencionados na aludida reportagem. Ao longo de anos esses apelos foram desvalorizados porque para a camarilha monopolista e oligopolista local, ligada aos centros de poder formais e informais e respectiva parentela, nunca houve uma genuína preocupação com o bem-estar dos residentes, com o controlo da especulação imobiliária e dos preços nos supermercados, com a permanente degradação da qualidade dos produtos e ausência de oferta atractiva.
Da fruta com óptimo aspecto que depois se vem a verificar estar podre ou ser intragável, seja devido aos sucessivos processos de congelação e descongelação ou por ser colhida demasiado verde, aos preços exorbitantes da carne, do peixe ou dos lacticínios, com variações constantes e sem qualquer justificação de um dia para outro, com uma acção fiscalizadora que sempre deixou muito a desejar por parte do Conselho dos Consumidores, houve de tudo ou pouco para chegarmos à situação actual.
Os Serviços de Estatística dizem-nos que o decréscimo no negócio dos supermercados locais foi de 5,2%. Ainda assim é muito bom porque apesar de tudo continuam a facturar com produtos caros e de má qualidade.
Aos poucos será fundamental que o Chefe do Executivo vá corrigindo todas estas "disfuncionalidades" cultivadas pelos seus dois antecessores em benefício da casta local e em prejuízo da generalidade da população.
É fundamental que isso seja feito rapidamente em prol de todos, porque também há muitos que não podem, nem vão, fazer compras a Zhuhai. Todos os que aqui vivem, não obstante todas as vicissitudes dos últimos anos, são tão gente quanto os que vivem do outro lado, e têm o direito de voltar a ter em Macau uma oferta decente nos seus supermercados, com um mínimo de qualidade e a preços normais, como tinham há dez, quinze ou vinte anos. Ninguém se alimenta ou se veste com o ouro e as jóias de Chow Tai Fook ou Lok Fook ou vai comprar vegetais a uma farmácia, únicos que podem pagar as rendas exorbitantes que muitos senhorios continuam a pedir em Macau.
E o que se diz em relação aos supermercados também se deve dizer no que aos restaurantes, bares e cafés importa. A este nível há toda uma revolução por fazer. Mas que terá de ser realizada, incluindo nos estabelecimentos dos casinos.

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